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ARTIGO

Escravas em Fuga, Sergipe, séc. XIX: uma história resistência das mulheres afro-sergipanas contra a escravidão

Criado: Sexta, 20 de Novembro de 2020, 14h01 | Publicado: Sexta, 20 de Novembro de 2020, 14h01 | Última atualização em Quinta, 26 de Novembro de 2020, 00h28

Dia da consciência negra 3Enquanto durou a escravidão no Brasil, fugas de cativos foram uma constante. Apesar de serem mais efetivadas pelos homens, as mulheres também se evadiam.

Prof. Amâncio Cardoso (IFS-Campus Aracaju).

Enquanto durou a escravidão no Brasil, fugas de cativos foram uma constante.

Apesar de serem mais efetivadas pelos homens, as mulheres também se evadiam. Prova disto, são os diversos anúncios de fugas de escravas publicados nos jornais do Império. (1)

Anúncios constituem-se ricas fontes históricas. Embora apenas revelem a perspectiva do senhor, neles podemos vislumbrar indícios sobre representações e relações sociais que urdiam a complexa malha do sistema escravista brasileiro.

 Em Sergipe, desde 1833 que os jornais publicam notas de fugas. (2) Analisemos então alguns anúncios para tentarmos perceber peculiaridades, motivações, estratégias e significados das evasões realizadas por mulheres escravizadas em busca da liberdade.

As fugas femininas tinham peculiaridades inerentes às suas condições. O estado de gravidez era uma delas. Tal situação causaria transtornos a uma fugitiva. Mesmo assim, em 1853, Antônia, escrava de Pedro d’Alcântara Sales, fugiu ‘por demais prenhe’ da cidade de São Cristóvão. (3)

Supomos que Antônia esperava criar seu rebento distante do jugo da escravidão. Ou talvez fugira para juntar-se ao pai da criança que possivelmente seria um quilombola; tão comum nas matas sergipanas desde o século XVII. (4) A intimidade entre Antônia e um quilombola não seria impossível, pois os escravos fugidos mantinham uma rede de solidariedade com moradores de engenhos e povoados, livres ou cativos, dos quais recebiam alimentos, armas, roupas, ferramentas e, com certeza, algum carinho.

Sobre as relações entre quilombolas, senhores e seus escravos, um chefe de polícia relatou, em 1873, que alguns proprietários permitiam não só que os aquilombados se escondessem em suas terras, como também não impediam que eles se relacionassem com seus escravos no engenho. (5) Portanto, ao fugir de São Cristóvão, o paradeiro da escrava ‘por demais prenhe’, Antônia, poderia ser um quilombo ou uma senzala de algum senhor mais tolerante.

Dia da consciência negra 2No entanto, a maioria dos senhores parecia ser, além de escravocratas, especuladores. Teria sido o caso do sr. João Gomes da Silva que apreendeu a escrava Luiza. Ela fugira em 1854 à senhora Josefa Francisca de Jesus do engenho das Antas, em Santa Luzia. (6) Segundo dona Josefa, o sr. Gomes da Silva, morador da fazenda Tapera na província da Bahia, teria oferecido indevidamente pela fugitiva 500 mil réis, valor médio de uma escrava, o que compraria cerca de 2,7 toneladas de açúcar à época. Esta oferta seria logo coberta por qualquer comprador porque Luiza sabia coser, bordar, tecer, lavar, engomar e cozinhar, segundo a anunciante. Logo, era uma escrava valorizada pelos variados dotes domésticos. Isto, com certeza, lhe impunha uma sobrecarga de serviços, provável motivo de sua fuga.

Sobre as possíveis motivações para as fugas, a mais comum seria o castigo físico. Porém, no caso das mulheres, sobretudo, outro suposto motivo poderia ser o assédio e/ou abuso sexual dos feitores, senhores e agregados. Alguns anúncios, por exemplo, acentuavam atributos com laivos de teor erótico, suscitando ambiguidades ou algo mais do que a busca por uma “mercadoria” perdida.

Num desses anúncios, publicado no jornal aracajuano O Raio, em 1880, o juiz Gonçalo Vieira de Melo (1822-1884) reclamava a fuga de sua escrava Eufrásia, cuja compleição era ‘corpulenta’ e, acrescentou, ‘ainda é moça’. (7) Ser moça, além de juventude, também denotava condição de ser sexualmente virgem. Situação, aliás, muito apreciada pelos escravocratas para iniciação dos filhos ou abuso próprio.

No poema ‘A Escrava’, por exemplo, publicado no Correio Sergipense de 1859 por Aniceto Barros, no qual se narra a trajetória de uma cativa desde o berço n’África até a velhice no Brasil, o poeta informa sobre a lascívia do senhor em relação à ‘mocinha’ escravizada. Ouçamo-lo: ‘.../ Desde então para cá eu sofri:/ Só quando era ainda mocinha,/ Via lascivo olhar do senhor,/ hoje que sou apenas velhinha,/ Sem encantos, não tenho valor’. (8)

Como se vê, a senilidade não atraia a tara do devasso senhor, pois a posse do corpo teria mais valor, na cultura patriarcal da época, se fosse revestida de pureza simbólica, ou seja, de virgindade e/ou puerilidade. (9) Além da literatura, páginas policiais de jornais do XIX também registram casos de assédio ou abuso sexual contra escravas moças.

Ainda em 1859, foi publicado no mesmo Correio um caso de estupro ocorrido em Aracaju contra a escrava Laurentina, menor de oito anos, propriedade do funcionário público José Joaquim Moreira. O crime foi confessado pelo menor Nicolau Teixeira da Cunha, que acusou como seu parceiro o caixeiro português Antônio Pereira da Silva. Este alegou ao subdelegado que ‘apenas tratara de lavar a menina’ por estar ensanguentada e chorando. Ele fora desmentido pela vítima e por um moleque da casa que havia trazido a menina a pedido do caixeiro. O corpo de delito foi procedido pelos doutores Manuel Antunes de Sales e Francisco Sabino Coelho de Sampaio. Os médicos declararam achar a menor ‘estuprada e com as partes sexuais tão dilaceradas, intumescidas e ensanguentadas que fazia consternar’. (10) Como se vê, escravas virgens e pueris eram objetos de desejo tanto de adolescentes quanto de adultos.

Assim, fosse em casa ou na roça as mulheres cativas sofriam perseguições por seus algozes. Daí supormos que as violentas investidas sexuais masculinas estariam entre as razões mais prementes das evasões femininas, suscitando diversas estratégias de fuga.

Dia da consciência negra 1Em 1866, por exemplo, a mulata Luiza, de 23 anos, ‘cabelos anelados, olhos grandes, boca regular, dentes bonitos’, usa como expediente para fugir a companhia de ‘um índio chamado Antônio, de quem é amásia’, segundo seu proprietário, dono do engenho Joazeiro em Itabaianinha. (11) A união de Luiza com o indígena poderia ser uma estratégia para garantir sua liberdade, pelo fato de que se uma escrava fugida conseguisse casar com um índio a lei os declararia livres e aos seus descendentes. (12)

s fugas geralmente eram solitárias, talvez para não despertarem delações entre os próprios escravos. No entanto, também havia fugas em dupla ou em grupo. A crioula Maria da Paixão, por exemplo, fugiu com sua filha Joaquina de 14 anos da cidade de Estância, em 1856. O curioso é que a menina Joaquina evadiu-se carregando ‘bem atarraxado’ no pescoço o ferro de cruz (instrumento de tortura) por castigo de fugas anteriores. Isto indica que seu proprietário, José Joaquim Pereira Lima, tinha sérios problemas de relacionamento com a adolescente, a ponto de mãe e filha levarem ‘toda a roupa’ e a menina ter fugido outras vezes. (13)

Já em 1854, na cidade de São Cristóvão, ocorreu uma fuga grupal: o casal nagô Delfina e Felipe também fugiu com seus filhos crioulos Jeremias e Arminda. Crioulo é a designação para o escravo nascido no Brasil. E nagô são indivíduos dos iorubas, povo do grupo sudanês da África Ocidental, que vivia em parte da Nigéria, Daomé e Togo. (14) Note-se que tanto num caso quanto noutro, as fugas foram efetivadas pelo laço de cumplicidade entre parentes próximos, o que indica certa falta de fidelidade entre os escravos, sobretudo os de etnias distintas.

Aliás, marcas étnicas eram uma das formas de identificar os fugitivos nos anúncios; neste caso as fugitivas. Tais sinais eram símbolos tradicionais de pertença das diversas etnias africanas. Exemplo disto foi a nagô Esperança que possuía como marca étnica ‘três cicatrizes de cada lado do rosto’ e fugiu da cidade de Estância em 1857. (15) Da mesma cidade e no mesmo ano, fugiu ‘uma escrava africana muito moça’, a qual carregava cicatrizes no rosto e nos braços como ‘sinal dos africanos’, aferiu seu senhor Manoel Joaquim da Silva Heitor. (16)

Da cidade de Estância fugiam muitas escravas. Em 1858, Ana, natural de Simão Dias, fugira ao padre José Luiz de Azevedo. (17) Certamente evadira-se para o sertão, lugar mais ermo e que deveria conhecer. Por mais que escapassem para longe, a fuga era um expediente quase sempre provisório. No entanto, algumas escravas conseguiram permanecer bom tempo longe do cativeiro.

Este foi o caso por exemplo de Maria, fugida de Maruim em 1860. Ela foi comprada por Francisco Antônio Anequim, em Itabaiana, e permanecera em fuga durante cerca de quatro anos até então, 1860. (18) Possivelmente, ela se embrenhara nas antigas matas de Itabaiana, lugar famoso por abrigar perseguidos pelas autoridades à época.

Note-se que a fuga era uma das expressões de revolta interior do escravo não adaptado. Ou seja, o cativo fugitivo parecia não escapar apenas do senhor ou da labuta, ele fugia também dos problemas de sua vida cotidiana, da falta de enraizamento no grupo dos escravos e no conjunto da sociedade, conforme a historiadora Kátia Mattoso. (19)

Neste sentido, também coube à mulher papel relevante na resistência ao sistema escravista. Portanto, quem ainda menospreza a atuação feminina na História pátria ou preconcebe a mulher como sexo frágil, desconhece as atitudes e os riscos de vida encarados com audácia pelas escravas fujonas.

 

Fotografias:

1- Foto de João Goston. Vendedora. Salvador, ca. 1870. Acervo Instituto Moreira Salles (IMS).
2- Foto de Antônio Lopes Cardozo. Antônio da Costa Pinto com a sua ama de leite. Salvador, 1868. (cartão de visita). Acervo: Arquivo Nacional.
3- Christiano Junior. Escrava Mina. Cartão de visita. ca. 1865.
Acervo: Museu Histórico Nacional. 

 

Sequência das referências:

1 FREYRE, Gilberto. O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. Recife: Imprensa Universitária, 1963. 224 p.

2 CARDOSO, Amâncio. Se correr, o bicho pega...: fugas de escravos em Sergipe, 1833-1880. Aracaju Magazine, 77/78, p. 20 e 22, nov./dez. de 2002.

3 Correio Sergipense. São Cristóvão, 09/02/1853, n. 10, p. 4.

4 FIGUEIREDO, Ariosvaldo. O negro e a violência do branco. RJ: J. Álvaro, 1977. p. 83-94; SANTOS, Lourival S. Quilombos e quilombolas em terras de Sergipe no séc. XIX. Revista do IHGS, Aracaju, n. 31, p. 31- 43; SANTOS, Maria Nely. A sociedade libertadora ‘Cabana do Pai Thomaz’. Aracaju: J. Andrade, 1997. p. 107-132.

5 ESPÍNOLA JÚNIOR, Manoel José. Relatório do chefe de polícia. In SEBRÃO, Cypriano d’Almeida. Relatório... em 01/03/1873. Aracaju: Typ. Jornal do Aracaju, 1873. Anexo, p. 6.

6 Correio Sergipense. São Cristóvão, 08/06/1854, n. 49, p. 4.

7 O Raio. Aracaju, 25/07/1880, n. 189, p. 4.

8 Correio Sergipense. Aracaju, 13/04/1859, n. 23, p. 4.

9 FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos. 9. ed. RJ: Record, 1996. p. 129.

10 Correio Sergipense. Aracaju, 30/12/1859, n. 89, p. 3.

11 Correio Sergipense. Aracaju, 06/06/1866, n. 44, p.4.

12 MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Ser escravo no Brasil. 3. ed. SP: Brasiliense, 2001. p. 154.

13 Correio Sergipense. Aracaju, 10/05/1856, n. 27, p.4.

14 FERREIRA, Aurélio B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. ed. RJ: Nova Fronteira, 1986. p. 1178.

15 Correio Sergipense. Aracaju, 14/11/1857, n. 50, p.4.

16 Correio Sergipense. Aracaju, 29/08/1857, n. 40, p.4.

17 Correio Sergipense. Aracaju, 28/04/1858, n. 21, p.4.

18 Correio Sergipense. Aracaju, 08/04/1860, n. 31, p.4.

19 MATTOSO, Kátia. Ser escravo no Brasil. 3. ed. SP: Brasiliense, 2001. p. 153.

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