Campus Estância debate apagamento das mulheres da história do conhecimento
Objetivo foi combater reprodução da desigualdade de gênero e do machismo no ambiente escolar
*Por Carole Ferreira da Cruz
A mesa de debate “Por que as mulheres foram excluídas da história do conhecimento?” mobilizou a comunidade do Instituto Federal de Sergipe (IFS) – Campus Estância no dia 13 de maio. Estudantes do ensino médio integrado aos cursos técnicos lotaram o auditório para ouvir as professoras falarem sobre suas trajetórias acadêmicas e as dificuldades enfrentadas para crescer em ambientes majoritariamente masculinos.
Meninas e meninos participaram ativamente das discussões em torno da pauta da igualdade de gênero. Enquanto as alunas fizeram falas empoderadas e reconheceram as próprias professoras como exemplo de mulheres que venceram as adversidades e alcançaram sucesso profissional, os alunos também se colocaram e demonstraram interesse em saber como os homens podem contribuir para a construção de um mundo melhor.
A grande motivação da comissão organizadora foi que o debate iniciado na escola fizesse os estudantes levarem as questões suscitadas para dentro de casa e para a comunidade, de modo a provocar uma mudança de atitude capaz de alterar a vida deles e dos que estão no entorno. Diante de uma sociedade machista, a desigualdade de gênero acaba sendo reproduzida dentro do ambiente escolar sem, na maior parte das vezes, ser tematizada e problematizada.
Para a professora de Filosofia, Laiz Fraga Dantas, coordenadora do Núcleo de Igualdade de Gênero e Diversidade Sexual (Nigeds), esse debate contribui para formar uma geração de meninas mais seguras e autoconfiantes. “É muito comum que mulheres se sintam inseguras sobre suas capacidades intelectuais, devido à falta de incentivo para que ocupem certo papeis sociais, sobretudo de liderança. Precisamos formar meninos mais atentos às questões de gênero e capazes de contribuir com as mulheres do seu entorno, seja auxiliando nas tarefas domésticas, respeitando as professoras e as colegas de classe”, ressaltou.
Diante do crescimento da misoginia, sobretudo nas mídias sociais, os meninos são os principais alvos do discurso de ódio. “Essa tendência tem gerado um aumento vertiginoso de casos de violência contra mulheres atualmente. A escola pode contribuir como um contrapeso a esse fenômeno, dando a oportunidade dos meninos e meninas conhecerem outras formas de pensar, mais alinhadas com uma sociedade igualitária e menos violenta contra as mulheres”, destacou Laiz Fraga.
IMAGINANDO CIENTISTAS
O evento contou com a partilha de experiências das professoras Jamille Madureira, Emille Mattos, Marília Estevão, Illian Oliveira e Lorena Campello e teve o apoio do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi). A mesa de debate faz parte do projeto de ensino "Imaginando Cientistas”, aprovado no edital da Pró-Reitoria de Ensino nº 01/2025/DEPS/PROEN com o objetivo de incentivar as alunas do IFS a permanecer, fortalecer o engajamento e progredir na formação profissional.
O projeto busca incentivar o debate sobre equidade de gênero no contexto escolar através da realização de um conjunto de atividades com os estudantes do ensino médio integrado, sob uma perspectiva interseccional. Entre as ações previstas, está a criação do jogo digital “Imaginando cientistas” inspirado na temática mulheres nas ciências e inovação, desenvolvido pelos alunos Nicolas Deivys Menezes e Matheus Caxicó, do curso de Programação de Jogos Digitais, sob orientação da professora Jamille Madureira.
Para subsidiar o trabalho, está sendo conduzida uma pesquisa junto aos alunos para definir o perfil das cientistas protagonistas do jogo, orientada pelos professores Gabriel Dienstmann (História) e Felipe Cesar Sousa e Silva (Química). Além disso, o NIGEDS, em parceria com o NEABI, tem promovido um ciclo de atividades no campus que inclui cineclube, mesas de debate, rodas de conversa e um mural biográfico com o perfil das cientistas selecionadas durante a pesquisa. O jogo deverá ser lançado no final de 2026.
A oportunidade de levar as questões de gênero para o ambiente escolar inspirou as estudantes. “Ver a luta das nossas docentes e a trajetória delas para chegar até aqui nos mostra que as mulheres têm sim mais dificuldade em se formar em áreas que a própria sociedade determina como masculinas. É essencial nos inspirar na garra que elas tiveram em se profissionalizar e exercer a profissão com muito caráter e amor”, comemorou Thyrza Emanuelle Conceição Cruz, do curso de Edificações.
APAGAMENTO FEMININO
Falar sobre o apagamento feminino na história do conhecimento é para a professora de Artes, Illian Narayama Rocha Oliveira, não apenas um tema de estudo, mas uma necessidade que atravessa própria identidade das mulheres. “Esse resgate ganha urgência no âmbito escolar, já que a sala de aula é o espaço vivo onde as narrativas do mundo são plantadas. Quando os estudantes crescem sem ver mulheres como cientistas, filósofas, inventoras e artistas nos livros didáticos, o silêncio pegagógico molda o que eles acreditam ser capazes de realizar”, salientou.
No IFS, onde os cursos se voltam para ciências, engenharias e tecnologias - áreas estereotipadas como masculinas -, Illiane defende que esse debate se torna ainda mais crucial. “Discutir essas ausências não é apenas ensinar fatos históricos omitidos, mas realizar um rito de transformação social. É humanizar o saber através dos corpos e das trajetórias de quem construiu a partir das margens, mostrando a cada estudante que a criação e o pensamento são sua herança por direito”, enfatizou.


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