Antônio, estudante do IFS: “O escritório do técnico agrícola é o campo”
Filho de agricultores de Poço Verde, aluno do curso Técnico em Agropecuária e do curso superior de Agroecologia no Campus São Cristóvão, Clodoaldo Antônio Santos de Almeida fala sobre agricultura familiar, clima, mecanização, mercado de trabalho, agroecologia e sementes crioulas.
Filho de agricultores, Clodoaldo Antônio Santos de Almeida prefere ser chamado de Antônio. A escolha vem da fé em Santo Antônio, celebrado em 13 de junho, e acompanha uma trajetória construída desde a infância no campo, em Poço Verde, no semiárido sergipano. Antes de chegar ao Instituto Federal de Sergipe (IFS), Antônio já havia plantado milho, feijão, algodão, abóbora, fava, mamona, girassol e outras culturas na propriedade da família. Hoje, como estudante do curso Técnico em Agropecuária e do curso superior de Agroecologia no Campus São Cristóvão, ele une a vivência prática da agricultura familiar ao conhecimento técnico adquirido no instituto. Nesta entrevista, fala sobre as mudanças no campo, a mecanização, as perdas causadas por pragas, as incertezas do clima, o papel do crédito rural, a concentração de terras, o mercado de trabalho para técnicos agrícolas e o encanto com a dimensão social da agroecologia.
Eu gostaria que você falasse um pouco da sua experiência no meio rural antes de ingressar aqui no campus, porque você já tem uma vivência prévia, desde a infância.
Eu sou estudante do curso Técnico em Agropecuária e do curso superior de Agroecologia. Meu nome nome é Clodoaldo Antônio Santos de Almeida, mas prefiro ser chamado de Antônio por conta da fé em Santo Antônio, celebrado em 13 de junho. Eu sou filho de agricultores. Meu pai é Antônio Inácio, minha mãe é Josefa Santos, todos agricultores. Eu nasci na agricultura.
Em que região você nasceu?
Em Poço Verde.
Sertão, não é?
Semiárido. Minha primeira atividade rural, quando criança, foi cultivando feijão e milho. Na época, havia a enxada para fazer a capina do mato e também havia a tração animal. Usava-se um equipamento entre as linhas para jogar terra aos lados do alimento, que era o feijão ou o milho.
Essa foi a minha primeira atividade no campo. Depois, fui colhendo algodão, plantando abóbora, plantando maracujá.
Tudo na propriedade da família?
Na família, sim. Plantando fava, diversos tipos de feijão: feijão branco, feijão manteiga, feijão rosinha, feijão preto, feijão badajó, feijão carioca, feijão rico. Também plantei milho crioulo, milho para pipoca, milho para mungunzá, que é o milho branco. Então, todas as espécies de milho eu já plantei; todo tipo de feijão eu já plantei, já cultivei. Também plantei mamona e girassol. Tudo isso para consumo próprio e para comercializar.
E como era feita essa comercialização? Vocês vendiam nas feiras ou passavam para outras pessoas? Como era feita a comercialização dos produtos?
Das duas formas. No centro da cidade, existia a comercialização dos alimentos. Havia uma feira popular, e a gente ia a essa feira com uma amostra do grão. Você levava a amostra e, através daquela amostra, negociava os valores. Se o comprador se interessasse, ele ia buscar toda a produção em casa, porque ela ficava armazenada em casa.
Então não era aquela feira, tipo feira livre, em que as pessoas já colocam o material à venda. Vocês vendiam para outras pessoas que iam comercializar? Seria assim?
Isso. Não tinha como levar para a feira, porque eram toneladas. Então não havia como levar em uma carroça, em um reboque de trator ou em um caminhão. Porque, se eu não tivesse êxito na venda, teria que trazer tudo de volta.
Vocês vendiam a safra. Não era a porção do alimento como a gente vê em feiras hoje.
A safra. Exatamente.
Agora, pequenas porções a gente vendia de outros alimentos, como o feijão de corda. O feijão de corda você produz pouco, em uma área pequena. Então esse feijão, sim, a gente vendia na feira livre. A gente ia com ele e vendia.
E vocês continuam comercializando? Continuam produzindo nessa área, nesse sítio, nessa fazenda?
Continuamos, mas os tempos mudaram. Hoje há uma escassez de mão de obra. Antigamente, existia muito mais mão de obra, e era muito mais fácil fazer o plantio, o manejo e depois a colheita de todos esses alimentos.
Com o passar do tempo, foram se modernizando os implementos agrícolas. Os implementos agrícolas começaram a ingressar nas áreas rurais. Com isso, você reduz a mão de obra e planta um único cultivo. Tornou-se uma única cultura.
Antes, você plantava milho de várias espécies, feijão de várias espécies. Hoje vocês plantam o quê?
Somente milho.
Só milho? E agora vocês plantam para o consumo próprio?
Nós plantamos abóbora, maracujá, batata, feijão e fava só para o consumo próprio.
Por conta dessa escassez de mão de obra?
Também. E por conta da tecnologia da produção do milho. Antigamente, para plantar uma área como a que nós temos lá, levaria uma semana. Hoje, um trator faz isso em horas. Em oito horas, ele faz isso.
Para colher, é a mesma coisa. A colheita antigamente era feita manualmente. Quebrava-se o milho, ensacava-se, fazia-se uma amontoada de milho para depois contratar a mão de obra. A mão de obra poderia ser a tradicional, que era no cacete, ou uma máquina que vinha para colher. Aí todo mundo pegava aquele caçuá ou sacos e se debruçava sobre a colheitadeira.
Hoje não. A colheita é tecnificada. A colheitadeira entra na propriedade, na roça, e faz a colheita com outro reboque ao lado, enchendo. A escanha já está na propriedade esperando a semente. Então é feito tudo em um dia só.
E como você vê a interferência das oscilações climáticas nesse processo de plantio e colheita? Essas intempéries do tempo, épocas em que chove mais ou menos. Você percebeu esse impacto?
Há uma variação do clima. E, sobre essa variação, existem métodos antigos que os produtores e os agricultores usam. Há uma técnica que ocorre no dia de Santa Luzia, no mês de dezembro, que é a experiência da pedra de sal.
Você pega as pedras de sal, o sal granulado, pega uma telha e representa os meses com grãos de sal. Você coloca cinco ou sete grãos de sal em cima de uma telha. Junta sete grãos para representar janeiro, sete para representar fevereiro, sete para representar março, e assim até o ano inteiro.
Você faz isso em dezembro, com o olhar e a perspectiva do ano seguinte. Coloca às seis horas da noite, no dia 13 de dezembro. No dia seguinte, ao amanhecer, você observa o que aconteceu com a experiência. Vai haver pontos em que o sal derreteu. Isso significa que naquele mês do ano seguinte haverá chuvas. E vai haver pontos em que não umedeceu. Então será um mês de seca.
Essa é uma maneira que os tradicionais usam para saber se o inverno do ano seguinte será bom. Há outras maneiras também, como o movimento das formigas e a movimentação do mandacaru.
Hoje em dia, com a tecnologia, com o celular, com as informações na televisão e tudo sendo transmitido, existe esse método tradicional, mas também existe o acompanhamento mês a mês do período das chuvas.
Os invernos e as safras sempre têm variações. Este ano, por exemplo, no mesmo período, choveu menos do que no ano passado. No fim de semana, estive com um produtor. Ele plantou agora em abril e já tomou prejuízo, porque esperava chuvas. Plantou com expectativa de chuva, mas não houve chuva, e ele já perdeu a safra. Vai ter que refazer todo o manejo do solo para plantar novamente. Então ele já começou com prejuízo.
Nesse caso, não seria uma opção mudar o tipo de cultura para se adequar ao clima? Como isso é feito?
Na realidade, houve chuvas em março. Ótimas chuvas ocorreram em março. E o agricultor é um homem de fé. Quando ele vê chuva, fica feliz e começa a criar a expectativa de que aquelas chuvas vão progredir, vão prosseguir.
Quando chegaram aquelas chuvas em março, ele preparou o solo e plantou em abril. Mas não houve a mesma sequência de chuva. A alteração da cultura por causa da chuva não é tão simples, porque quem determina o que você deve plantar como cultura é o mercado.
É isso que eu queria que você avaliasse. Muitas vezes vocês fazem o planejamento para plantar milho ou feijão, e aí há alteração por muita chuva ou escassez. Muita gente pode perder a safra. Como vocês fazem esse processo, olhando para o mercado e para o que está acontecendo no cenário ambiental? Como lidam com isso?
Existem dois tipos de agricultores, de produtores. Existe o produtor pequeno.
Da agricultura familiar.
Da agricultura familiar. Os dois produtores de que vou falar são da agricultura familiar. Só que um é maior e o outro é menor.
Há um produtor que faz o plantio com recursos próprios. Quando ele faz com recursos próprios, não está atrelado a nenhum custeio via banco. Esse produtor está mais livre para plantar o que quiser e o que entender como benefício para o seu rendimento, para o seu lucro. Então há esse pequeno produtor que planta feijão em uma área pequena, faz ele mesmo a colheita e obtém o resultado.
Quando é uma área maior, há um financiamento via banco. É feito um projeto por um técnico agrícola, financiado pelo banco. Há um custeio e há uma data-limite para plantar. Existe uma data de início e uma data de fim para você ficar dentro desse ciclo e ser coberto por um seguro-safra.
Esse seguro permite que você plante a partir do dia 11 de abril até o final de maio. Plantando entre essas datas, caso ocorra uma intempérie climática, com chuvas demais ou chuvas de menos, e você perca a safra, você está coberto. Há um seguro rural, há um Pronaf que lhe protege.
Então os produtores seguem essas datas quando a plantação está sendo financiada pelo banco, pelo governo federal. Esse produtor que citei como exemplo plantou dentro da data. A janela vai de 11 de abril até o final de maio, e ele plantou no dia 15 de abril. Como não houve produção, ele já está coberto. Os produtores costumam seguir essas datas por conta disso.
Você já teve perda de produção?
Muitas perdas.
Uma perda grande. Você pode comentar alguma que ficou marcada?
Tenho vários relatos para lhe dar. Quando nós produzíamos algodão, quando eu era criança, havia uma praga chamada bicudo. Ela atacava o algodão, e o algodão não se desenvolvia.
Você plantava em uma área grande, de 10, 13, 15 tarefas, vamos dizer. O bicudo atacava, há muitos anos, em 1998, 2000, enfim. E era preciso combater o bicudo. Na época, usava-se um produto leve, um inseticida, mas não dava tempo, porque era muito rápido. Você dormia e, quando acordava, a praga já estava toda na lavoura. Alastrava-se, e você não conseguia mais controlar.
Outro exemplo é o milho. Há uma lagarta-do-cartucho que ataca todo o milho. Só que ela é mais lenta, não é como o bicudo. O bicudo é muito rápido.
Existe também outro efeito que ocorre no feijão. Você planta o feijão, e aí o feijão dá uma praga. Quando ele está na flor e vai formar a vagem, há uma praga que deixa uma ferrugem, uma espécie de ferrugem na vagem, e apodrece o grão. Com isso, você perde todo o investimento.
Se tiver plantado dentro do período, recebe?
Recebe.
Recebe se for questão de praga? Está segurado também?
Está assegurado. Só que hoje não se planta mais feijão, porque o feijão não é mecanizado. O milho tem a produção toda mecanizada.
Por isso Sergipe, no ranking de produção de milho, é sempre muito alto, não é?
Os maiores produtores de milho do Estado de Sergipe, segundo a Emdagro, em pesquisa que fiz recentemente, são Carira em primeiro lugar, Simão Dias em segundo e Poço Verde em terceiro. São os maiores produtores do estado.
Inclusive, nessas regiões está acontecendo uma situação que precisa ser observada. Eu não sou a favor nem contra. O que está acontecendo é que, a cada ano, aumenta a produtividade dessas regiões. E os maiores produtores estão comprando as terras dos menores produtores.
Os menores produtores, quando recebem uma oferta acima do valor de mercado, vendem suas terras e vão para a cidade. Só que, nas cidades, eles não têm atividade comercial, porque não sabem fazer nada na cidade. O que sabem fazer é produzir no campo.
Então isso tem acontecido nessas regiões.
É um problema social, não é?
Social. As terras sergipanas são bem divididas. Não existe aqui uma realidade de latifundiários que sejam donos de todas as terras. As terras sergipanas são bem distribuídas. Mas, se esse fenômeno crescer a cada ano, daqui a pouco só eles serão donos.
Vão engolir os pequenos agricultores.
Exatamente. Comercialmente.
Quais são os principais desafios e as potencialidades da agricultura familiar hoje, em relação ao mercado e às condições climáticas? Como você enxerga isso?
Os principais desafios da agricultura hoje são, em primeiro lugar, o financiamento. O financiamento via governo federal, feito por bancos como o Banco do Brasil e principalmente o Banco do Nordeste, está criando limites e barreiras para o agricultor. Estão dificultando os custeios agrícolas.
Isso tem sido uma dificuldade enorme para o agricultor, porque ele contrata o projetista, o projetista faz o projeto, faz a análise de solo, prepara toda a documentação, envia para o banco, e o banco cria impedimentos, cria barreiras. O agricultor fica esperando, e o banco vai atrasando, exigindo isso, exigindo aquilo.
Há casos em que, por causa da última lei ambiental criada, o banco está exigindo que não haja desmatamento na propriedade. Ele usa o georreferenciamento e o satélite para fazer essa análise, mas às vezes essa verificação não corresponde à realidade.
Tenho observado que alguns agricultores têm sido impedidos de acessar o crédito porque estão cortando palma para dar ao gado. Isso não é desmatamento.
De jeito nenhum.
Isso é um desafio.
Porque o banco, na verdade, não tem um olhar mais sensível em relação aos casos. Ele generaliza.
Exatamente. Esse é o desafio.
Outro desafio é o clima. O clima está oscilando muito. Isso tem gerado dificuldade, porque, no planejamento do plantio, o agricultor escolhe a semente.
Há duas maneiras de o produtor se organizar para fazer o planejamento do seu grão. Existe o grão de ciclo curto. Se eu imagino ou deduzo que este ano será de poucas chuvas, escolho a semente de ciclo curto para não ter prejuízo. Eu compro essa semente porque ela precisa de pouca chuva e, em 120 dias, já tenho o grão formado.
Se eu sei que a chuva será espaçada, escolho a semente de ciclo longo, de 150 dias. Então tenho uma perspectiva maior de tempo para chuvas espaçadas. Às vezes, as chuvas costumam ser apenas localizadas. Elas vêm e depois vão embora. Então o agricultor faz o planejamento da semente conforme o clima.
Também é um desafio chegar a essa análise. E os benefícios da agricultura estão em seguir todas as recomendações encaminhadas pelo projetista: fazer o manejo do solo corretamente, fazer a análise de solo, corrigir os nutrientes indicados nessa análise, fazer a adubação correta, fazer o plantio correto, com a profundidade adequada da semente, esperar as chuvas e aguardar o sucesso, que é a alegria da colheita.
Como você enxerga o mercado de trabalho da agropecuária hoje? Quais são os desafios para quem ingressa aqui no campus, quer fazer um curso de Agropecuária, sendo produtor rural ou visando trabalhar em alguma propriedade? Como você observa o mercado?
Eu sou o maior incentivador dos alunos e estudantes do IFS. Levei 20 anos para chegar até aqui. Eu não sabia que o Campus São Cristóvão, o Instituto Federal, existia.
Quando cheguei aqui, foi Nossa Senhora Aparecida que me colocou aqui. Eu agradeço todos os dias a Nossa Senhora Aparecida. Tive plena certeza de que foi Nossa Senhora Aparecida que me colocou aqui quando me deparei com a santa que há aqui, Nossa Senhora Aparecida, ali próximo ao refeitório.
Quando cheguei aqui, fiquei encantado com este instituto. Isto aqui é uma riqueza sem tamanho. Tem todos os departamentos, o corpo técnico de professores, o corpo técnico de servidores técnico-administrativos, todos altamente capacitados, um currículo perfeito.
Quando cheguei aqui e comecei a cruzar com alunos do ensino médio no refeitório, e vi o quanto eles são inteligentes, percebi que, como Nossa Senhora Aparecida me colocou aqui, eu tenho uma missão a cumprir. Então estou buscando essa missão.
Identifiquei, no ano passado, que a minha missão era divulgar o Campus São Cristóvão para o estado, para as cidades, para os povoados. Aí tive a ideia de criar um podcast aqui do campus, para que a gente pudesse conversar com os adolescentes, com os alunos.
Nesse podcast, discutiríamos temas do instituto. Em uma semana, falaríamos sobre apicultura; em outra, sobre olericultura; em outra, sobre piscicultura. E os grandes comunicadores, os grandes protagonistas dessa fala, seriam os próprios alunos. Essa informação, esse conteúdo audiovisual, chegaria a todo o estado e propagaria os grandes cursos que há aqui.
Mas o podcast ainda é só um projeto?
Está só no projeto, porque precisa de equipamentos e precisa de espaço. O espaço acho que é mais fácil do que o equipamento. Então falta pouco: conseguir algum projeto para comprar esses materiais.
E o mercado de trabalho, como você perguntou, está bombando. O Estado de Sergipe está sendo visto por outras regiões. Há um movimento silencioso em Sergipe, que está atraindo produtores de outras regiões. Descobriram Sergipe agora. Sergipe é uma terra fértil.
Na região de Cristinápolis e Arauá, veio um empresário de São Paulo, que se instalou aqui há 10 anos, e é ele quem produz as laranjas aqui. Em outras regiões, na área vizinha a Sergipe, por exemplo, veio um agricultor do Espírito Santo. Ele está desenvolvendo um plantio de café na região de divisa com Tobias Barreto e Itapicuru.
Em outras regiões do Agreste, como Itabaiana, Malhador e Itabi, os produtores estão deixando a pecuária, o pasto, para plantar milho. Então há muitas regiões mudando a superfície de cultura.
O técnico agrícola formado no Instituto Federal tem campo para trabalhar com mecanização, com desenvolvimento de projetos, com topografia de terrenos. Então há mercado, muito mercado, para o estudante do instituto.
Agora, esse trabalho agrícola ocorre no interior do estado. O instituto fica posicionado na região de São Cristóvão. São Cristóvão é bem desenvolvido na piscicultura e na carcinicultura. Então o técnico agrícola pode atuar em São Cristóvão nessas áreas. Mas, em outras áreas, é no interior do estado que ele pode atuar.
Em relação ao que conversamos antes, sobre o controle de pragas, eu queria que você explicasse as diferenças entre esse manejo feito pelo técnico agrícola e o olhar da agroecologia.
Existe o controle de pragas feito quimicamente, com agrotóxico. E existe o mesmo controle de pragas feito através das plantas, de forma manual, artesanal.
Eu sou a favor dos dois, em proporções distintas e em realidades distintas. Existem propriedades rurais que são pavimentadas e em que há muitos moradores. Então deveria haver limites para o uso do agrotóxico.
O que tem ocorrido é que as pessoas fazem o manejo com agrotóxico em locais onde há residências, e isso tem ocasionado doenças nas pessoas vizinhas. Por que, nessas regiões, não seria obrigatório usar o controle de pragas de forma artesanal, com biofertilizantes feitos com plantas?
Por outro lado, existem regiões do país onde é só terra, onde você não vê moradores. Nessas regiões, sou a favor de que se utilize agrotóxico, até porque não existe mão de obra humana que dê conta de milhares de hectares de terra.
Nessas regiões onde está o agronegócio, não é?
Exatamente. São milhares de hectares produzidos. Em regiões pequenas, que conheço várias, preferencialmente o controle deveria ser feito com biofertilizantes, com o uso de plantas. Tanto com extrato das plantas quanto com corredores agroecológicos, com determinadas plantas que atraem as pragas.
Agora é uma curiosidade minha. Eu estava em uma vinícola no interior da Bahia e percebi que, na frente de cada parreiral, havia um pé de rosas. Conversando com os responsáveis pela propriedade, eles me explicaram que as pragas atacam primeiro as rosas, e assim eles têm tempo hábil para adequar o manejo antes que a praga chegue ao parreiral. Seria mais ou menos assim?
Exatamente isso. Você tem a sua cultura principal, à qual se dedicou no plantio para obter renda, para produzir uma alta produção. Você prioriza aquele grão, aquela semente. Mas, para o controle de pragas, nas bordas laterais, faz uma plantação, como no exemplo das rosas.
Então a praga ataca a rosa e não ataca a cultura principal.
A uva, no caso.
A uva, o principal cultivo. Nas áreas rurais, conforme as pragas e conforme a sua cultura, você faz essa adequação. Cada cultura tem uma praga diferente. Então você vai adequar a planta conforme a sua cultura.
Que conselho você daria aos estudantes que estão ingressando agora e ainda estão um pouco perdidos em relação à agropecuária?
O conselho, não sei se seria um conselho, é que eles saibam que essa área é apaixonante. É uma área, uma atuação profissional, em que você leva alimentos para a população. Eu não diria que você salvaria o mundo, porque seria demais para um profissional da área, mas ele contribuiria muito com a sociedade na produção de alimentos.
É uma área que exige esforço e dedicação, porque o seu escritório é o campo. Então tem que se apaixonar, tem que gostar. Você vai se deparar com sol, chuva, neblina, noite e animais. Então tem que se identificar com todas essas áreas, com todo esse ambiente que pertence ao campo. É uma área excelente, maravilhosa.
Você já tinha uma vivência, uma bagagem gigantesca nas comunidades rurais. O que aprendeu aqui? O que leva para a sua vida?
Vou tentar resumir, porque tudo aqui me encantou. Na área da Agroecologia, o que mais mexeu comigo, o que mais me encantou até agora, não foi nenhum manejo do solo, não foi compostagem, não foi nada disso. Foi a questão social.
A Agroecologia visa muito os excluídos, visa muito o pequeno produtor, aquele pequenininho, onde o financiamento não alcança, onde não há projetos. A Agroecologia abraça aquele que tem um quarto de terra, uma tarefa de terra, um quadro pequeno. Ela alcança essas pessoas.
Isso me encantou, porque o crédito e o custeio não chegam a elas.
Eles são invisibilizados.
Sim, porque são pequenos. O projeto agrícola é feito para a agricultura familiar, sim, mas para o proprietário com uma quantidade maior de terra.
O que também me encantou na Agropecuária é que, aqui no campus, você abrange todas as áreas rurais. A Agropecuária é a base para as outras áreas. Ela é a base para a agroindústria, porque produz sementes, laranja, abacaxi, banana, produz tudo.
O leite, não é?
O leite para a agroindústria. Então a Agropecuária prepara para as outras áreas. Isso, na Agropecuária, foi o que também me encantou. Além dos setores e departamentos de que o IFS dispõe aqui: apicultura, olericultura, equinocultura, piscicultura, suinocultura e avicultura. Todos esses departamentos o IFS dispõe aqui para estudos, ensino e pesquisa.
Você está realizando alguma pesquisa no momento?
Estou. No momento, faço parte do projeto Guardião de Sementes Crioulas, que trabalha com uma semente de milho transmitida de geração para geração, em sua origem. Faço parte de um projeto que preserva essa semente.
Aqui no instituto, faço parte de um projeto em que a gente desenvolve e dissemina essa cultura, porque o milho produzido no Brasil é dividido em dois tipos: o milho crioulo, que é para o consumo humano, e o milho transgênico, utilizado nas rações animais, para as aves.
Esse milho transgênico, o ser humano só consome quando é feito cuscuz, quando é processado. Já com o milho crioulo, você faz pamonha, canjica e cuscuz.


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