“Uma gestão não se define pela carreira de origem”, diz primeira técnica-administrativa eleita diretora-geral do IFS
Dielle Filocre assume o Campus Propriá com planos para ampliar a assistência estudantil, implantar o curso de Aquicultura e retomar a construção do restaurante
Aos 43 anos, Dielle Oliveira Filocre Rodrigues chega à direção-geral do Campus Propriá com um marco na história do Instituto Federal de Sergipe (IFS). É a primeira servidora técnico-administrativa eleita pela comunidade acadêmica para comandar um campus da instituição. Natural de Irecê, na Bahia, ela construiu sua trajetória profissional entre o setor privado e a administração pública, com passagens pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e pela Pró-Reitoria de Administração do IFS. Empossada nesta quinta-feira, 29 de outubro, Dielle assume um mandato de quatro anos, até 2030. Entre as prioridades da nova diretora estão a ampliação das políticas de permanência estudantil, a retomada da construção do restaurante e a implantação do curso de Aquicultura, previsto para 2027, com possibilidade de oferta em 2028. A gestora também pretende avaliar a redução da jornada presencial dos servidores participantes do Programa de Gestão e Desempenho (PGD), atualmente fixada em 20 horas semanais, para 16 horas. Nesta entrevista, Dielle fala sobre o significado de sua eleição, os desafios da gestão e as medidas que pretende adotar no Campus Propriá.
Fale um pouco sobre sua trajetória pessoal, acadêmica e profissional. Quantos anos você tem, qual é sua formação e em que áreas atuou antes de ingressar no IFS? Quais funções já desempenhou na instituição e de que maneira essas experiências influenciam sua visão sobre a gestão de um campus?
Tenho 43 anos, sou baiana, de Irecê, onde cresci e construí minhas raízes. Ao longo da minha trajetória, sempre acreditei na educação e no serviço público como instrumentos fundamentais de transformação social. Sou graduada em Administração pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), especialista em Gestão Pública pela Faculdade Signorelli e mestra em Engenharia de Produção pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Minha trajetória profissional teve início no setor privado, onde atuei na área de logística industrial. Posteriormente, entre 2013 e 2018, exerci o cargo de Administradora no Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido (CDSA), da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), desempenhando funções relacionadas à coordenação do PRONATEC, à gestão de projetos e à modernização administrativa. Nesse período, também participei de projetos de extensão voltados ao fortalecimento da agricultura familiar, com destaque para o projeto Umbu do Cariri, além de iniciativas relacionadas à otimização de agroecossistemas e à promoção do desenvolvimento sustentável no semiárido paraibano.
Em 2018, ingressei no Instituto Federal de Sergipe (IFS), no cargo de Administradora, passando a atuar na Pró-Reitoria de Administração, especialmente nas áreas de gestão patrimonial, planejamento de contratações públicas e gestão administrativa institucional.
Essas experiências, tanto no setor privado quanto em instituições públicas de ensino, proporcionaram-me uma visão ampla e integrada da administração, desde o planejamento estratégico até a execução e o acompanhamento das ações. Também fortaleceram minha compreensão sobre a importância do trabalho em equipe, da responsabilidade na aplicação dos recursos públicos, da transparência e, sobretudo, da valorização das pessoas.
Acredito que administrar um campus vai muito além de gerenciar recursos, processos e estruturas. É, acima de tudo, cuidar de pessoas, compreender suas necessidades, ouvir diferentes perspectivas e construir soluções coletivamente. Minha trajetória me ensinou que uma gestão eficiente precisa caminhar lado a lado com uma gestão humana, democrática e participativa, na qual cada decisão administrativa tenha como propósito fortalecer a instituição, melhorar as condições de trabalho dos servidores e contribuir para a qualidade do ensino, a permanência e o êxito dos nossos estudantes.
Você é a primeira técnica-administrativa eleita para assumir a direção-geral de um campus do IFS. O que essa conquista representa e em que medida espera que ela inspire outros servidores a disputar esses espaços de liderança?
Essa conquista representa um dos momentos mais importantes da minha trajetória pessoal e profissional. Ser a primeira servidora técnico-administrativa eleita para a Direção-Geral de um campus na história do IFS é motivo de muito orgulho, mas também de uma enorme responsabilidade. É uma conquista que vai além da minha pessoa. Representa a quebra de barreiras históricas e a demonstração de que os servidores técnico-administrativos possuem conhecimento, competência, experiência e capacidade de liderança para ocupar os mais altos espaços de gestão da nossa instituição.
E, como mulher, essa conquista tem um significado ainda mais especial. Sabemos que os espaços de decisão e liderança foram, durante muito tempo, predominantemente masculinos. Por isso, ocupar esse lugar também significa abrir caminhos e mostrar que nós, mulheres, podemos e devemos estar presentes nas decisões que constroem o futuro das instituições. Espero, sinceramente, que minha trajetória inspire outros técnicos-administrativos, especialmente as mulheres, a acreditarem no seu potencial e a se reconhecerem como possíveis dirigentes.
Quero demonstrar, por meio do trabalho, que uma gestão não se define pela carreira de origem de quem a conduz, mas pela capacidade de dialogar, liderar, tomar decisões responsáveis e construir resultados coletivos.
Como avalia o apoio recebido na consulta eleitoral e de que forma pretende ampliar a participação de estudantes e servidores nas decisões do campus?
Recebo o resultado da consulta eleitoral com muita gratidão, alegria e senso de responsabilidade. A confiança depositada em nosso projeto demonstra o desejo da comunidade por uma gestão mais próxima, participativa, acolhedora e comprometida com as necessidades reais do campus. Durante a campanha, tive a oportunidade de ouvir estudantes, docentes e técnicos-administrativos, conhecer suas preocupações, sugestões e expectativas. Esse diálogo foi fundamental para a construção das nossas propostas e continuará sendo a base da nossa gestão.
Uma das minhas principais prioridades será estabelecer canais permanentes de escuta e participação, promovendo reuniões periódicas com os diferentes segmentos, fortalecendo os espaços colegiados e garantindo transparência nas decisões administrativas.Também considero fundamental valorizar os servidores, combater qualquer forma de assédio ou discriminação e construir um ambiente institucional pautado no respeito, na confiança e na colaboração.
Quero que cada estudante e cada servidor se sinta parte da gestão e tenha a certeza de que sua voz será ouvida. Sempre defendi que ninguém constrói uma instituição sozinho. Por isso, nosso compromisso é fazer uma gestão de todos e para todos, em que as decisões sejam construídas, sempre que possível, de maneira coletiva, com diálogo, responsabilidade e respeito às diferenças.
Quais são os principais obstáculos à permanência dos estudantes no Campus Propriá e que medidas pretende adotar para reduzir a evasão?
A permanência e o êxito dos estudantes estão entre as prioridades da nossa gestão. Entendo que não basta garantir o acesso à educação pública de qualidade; precisamos oferecer condições para que nossos estudantes permaneçam na instituição, concluam sua formação e tenham oportunidades de inserção no mundo do trabalho. Entre os principais desafios estão as dificuldades socioeconômicas, as condições de transporte e alimentação, as necessidades de acolhimento e atenção à saúde mental, além das dificuldades de aprendizagem e da necessidade de maior conexão entre a formação ofertada e as perspectivas profissionais dos estudantes.
Nossa primeira medida será aprofundar o diagnóstico dessas dificuldades, ouvindo a comunidade acadêmica e trabalhando em conjunto com os setores de ensino e assistência estudantil. Pretendemos fortalecer os programas de assistência estudantil, buscar alternativas para melhorar as condições de transporte e alimentação, ampliar as iniciativas de acompanhamento pedagógico e acolhimento psicossocial, além de promover melhorias nos espaços de convivência, como a disponibilização de armários para os estudantes.
Outra iniciativa importante será a realização de estudos sobre o mercado de trabalho e pesquisas de campo para subsidiar o planejamento da oferta de cursos do campus. A análise do mercado de trabalho, realizada pela Pró-Reitoria de Desenvolvimento Institucional (Prodin), permitirá identificar áreas de formação com melhores perspectivas de empregabilidade e remuneração. Já a pesquisa de campo buscará conhecer os interesses, as expectativas e as preferências dos estudantes e da comunidade regional em relação aos cursos ofertados e às possibilidades de novas formações.
Essas informações serão consideradas em conjunto com outros fatores, como a infraestrutura disponível, o perfil do corpo docente e as potencialidades econômicas e sociais do Baixo São Francisco. Nosso objetivo é oferecer cursos que dialoguem com as expectativas dos estudantes e com as oportunidades de desenvolvimento da região, contribuindo também para a motivação, a permanência e o êxito escolar. Além disso, pretendemos acompanhar sistematicamente os indicadores de frequência, retenção e evasão, permitindo identificar situações de risco e desenvolver ações preventivas.
Queremos que o Campus Propriá seja um espaço onde os estudantes não apenas ingressem, mas encontrem condições para permanecer, concluir seus estudos e construir novas oportunidades de vida e de trabalho. A permanência estudantil precisa ser uma responsabilidade de toda a instituição.
Seu plano de ação prevê a implantação do curso de Aquicultura. Qual é a importância dessa formação para o Baixo São Francisco e quando ela poderá começar a ser ofertada?
A implantação do curso de Aquicultura é uma iniciativa estratégica para o desenvolvimento econômico e social de Propriá e de toda a região do Baixo São Francisco, considerando a forte relação do território com o Rio São Francisco e com as atividades de pesca e produção aquícola. Existe uma demanda da comunidade por essa formação, e entendemos que o IFS deve estar cada vez mais conectado às vocações produtivas locais, promovendo a qualificação profissional, ampliando as oportunidades de trabalho e renda e contribuindo para o desenvolvimento regional sustentável.
O curso de Aquicultura está contemplado no planejamento institucional do IFS, com previsão de implantação em 2027. Atualmente, estamos avançando nos estudos e nas adequações necessárias para viabilizar sua oferta, especialmente em relação à infraestrutura, à disponibilidade de laboratórios e equipamentos, às atividades práticas e ao quadro de profissionais.
Outro aspecto que será considerado é a possibilidade de oferta no turno noturno, buscando ampliar o acesso à formação, especialmente para os trabalhadores da região que precisam conciliar os estudos com suas atividades profissionais. Além disso, pretendemos utilizar estudos do mercado de trabalho e pesquisas de campo para confirmar e dimensionar a demanda, conhecer o perfil e as expectativas dos potenciais estudantes e identificar as necessidades de qualificação profissional da região. Nosso objetivo é viabilizar a implantação do curso em 2027. Caso sejam necessários ajustes adicionais, trabalharemos para concretizar sua oferta em 2028, garantindo as condições adequadas para uma formação de qualidade.
Com essa iniciativa, queremos ampliar as oportunidades educacionais e fortalecer o papel do Campus Propriá como agente de transformação social e desenvolvimento sustentável do Baixo São Francisco, oferecendo uma formação conectada às potencialidades do território e às necessidades da população.
A construção do restaurante estudantil é outra prioridade de sua gestão. Qual é a situação atual da obra e existe alguma previsão para sua retomada e conclusão?
A construção do restaurante estudantil é uma das prioridades da nossa gestão, pois entendemos que a alimentação é um direito fundamental e está diretamente relacionada à permanência e ao êxito dos nossos estudantes. Atualmente, a obra encontra-se paralisada em razão das dificuldades enfrentadas pela empresa contratada, que interrompeu suas atividades nos campi do IFS onde atua. Essa situação tem sido acompanhada pelos setores responsáveis da instituição, buscando assegurar a retomada dos serviços e a continuidade da execução contratual.
Na última reunião com a Diretoria de Planejamento de Obras e Projetos (Dipop), a empresa PHC Construtora apresentou uma proposta de retomada gradual das atividades, com previsão de reinício dos serviços em 9 de novembro de 2026, inicialmente com uma equipe reduzida, seguida da ampliação do efetivo de trabalhadores ao longo do mês. O cronograma também prevê uma avaliação da produtividade em 23 de novembro e a apresentação de um relatório de acompanhamento em 7 de dezembro. É importante destacar que esse planejamento ainda será submetido à análise da fiscalização contratual, podendo sofrer ajustes conforme as necessidades técnicas e administrativas. Nossa prioridade será acompanhar de perto esse processo, em articulação com a Pró-Reitoria de Administração (Proad) e a Dipop/Prodin, buscando garantir que a retomada aconteça efetivamente e que a obra avance com a maior celeridade possível.
Quanto ao prazo de conclusão, precisamos agir com responsabilidade. Neste momento, não seria adequado estabelecer uma data sem a confirmação da retomada dos serviços e a atualização do cronograma físico-financeiro da obra. Nosso compromisso é trabalhar para que o restaurante estudantil seja concluído o mais breve possível, garantindo à comunidade acadêmica um espaço adequado de alimentação, convivência e acolhimento. Mais do que uma obra de infraestrutura, trata-se de um investimento essencial na qualidade de vida e na permanência dos nossos estudantes.
O Campus Propriá já adota o Programa de Gestão e Desempenho (PGD) em formato híbrido. Como pretende avançar na proposta de reduzir a carga horária presencial dos servidores sem comprometer o funcionamento da unidade?
A valorização dos servidores e a melhoria das condições de trabalho são compromissos importantes da nossa gestão. Acredito que uma instituição que valoriza seus profissionais também cria melhores condições para oferecer serviços públicos de qualidade.
O Campus Propriá já possui o Programa de Gestão e Desempenho (PGD) implementado na modalidade híbrida, com previsão de 20 horas semanais de atividades presenciais. Nossa proposta é avançar nesse modelo, realizando estudos para avaliar a possibilidade de redução da carga horária presencial para 16 horas semanais, considerando as especificidades, as atribuições e a realidade de cada setor. Para isso, pretendemos constituir um Grupo de Trabalho responsável por avaliar a viabilidade dessa adequação, observando as normas institucionais, as experiências já adotadas em outros campi e, principalmente, as necessidades de funcionamento do Campus Propriá.
Minha experiência na Proad, inclusive no acompanhamento e monitoramento do PGD, proporcionou conhecimento sobre seu funcionamento e sobre a importância do planejamento, da definição de metas e do acompanhamento das entregas e dos resultados. É fundamental destacar que a eventual redução da carga horária presencial não poderá comprometer o atendimento aos estudantes nem a continuidade dos serviços administrativos e acadêmicos. Por isso, qualquer alteração deverá considerar a natureza das atividades desenvolvidas, a organização das equipes e a garantia do funcionamento adequado de cada setor.
Nosso objetivo é construir essa proposta de forma participativa, ouvindo os servidores e buscando soluções que conciliem a valorização profissional, a qualidade de vida e a eficiência dos serviços prestados à comunidade acadêmica. Acredito que uma gestão moderna e participativa deve ser capaz de conciliar o bem-estar dos servidores com a responsabilidade institucional. É esse equilíbrio que pretendemos fortalecer no Campus Propriá, sempre com diálogo, planejamento e respeito às particularidades de cada setor.


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