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COMBATE À INTOLERÂNCIA

A Pluralidade Religiosa no IFS é um exercício de liberdade

Publicado: Quarta, 21 de Janeiro de 2026, 13h20 | Última atualização em Quarta, 21 de Janeiro de 2026, 13h20

Combater a intolerância religiosa é um ato educativo

 Por Anderson Ribeiro

silhouette of woman pray religion concept 2026 01 11 09 08 32 utc.jpgO Instituto Federal de Sergipe (IFS) tem, ao todo, 1.361 servidores e cerca de 8.500 alunos. Num universo tão grande de pessoas não é difícil de perceber a diversidade de gênero, cor, idade e entre tantos outros aspectos, religião. São cristãos católicos, evangélicos, umbandistas, candomblecistas, espíritas e até agnósticos, que convivem diuturnamente num mesmo lugar.

Neste 21 de janeiro é celebrado o Dia Mundial da Religião e o Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa. Data para reforçar a importância da liberdade religiosa e a lei que torna crime a perseguição por motivos religiosos. E é também um convite à reflexão sobre a importância das crenças e como elas podem contribuir para um mundo melhor.

As religiões, no geral, têm o mesmo fim, mas são conduzidas por meios diferentes. Praticar o bem, a solidariedade, viver para se tornar um ser humano melhor e mais evoluído, são alguns objetivos em comum. A forma, porém, de como alcança-los é diferente; como diferente também é a crença às divindades, ou a incerteza quanto à existência delas, ou mesmo, a ausência delas. Mas o que move essa pluralidade religiosa é sem dúvida a fé. Mas fé e religião são coisas diferentes.

Fé é sentimento de crença em algo ou alguém, sem necessidade de provas concretas, envolvendo esperança e certeza no futuro. É definida por dicionários como a convicção na veracidade de algo não comprovado. Já a Bíblia a descreve como o "firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem" (Hebreus 11:1). 

Já religião é o sistema externo de práticas, rituais, regras e instituições que uma comunidade segue para expressar essa fé ou crença, podendo ser um caminho para a fé, mas não sinônimo dela, pois se pode ter fé sem religião e, em alguns casos, praticar religião sem fé profunda.

WhatsApp Image 2026 01 21 at 08.18.41Exatamente como descreveu Ivaneide de Jesus Santos, coordenadora de Assuntos Estudantis (CAE), do Campus Aracaju, espírita há 39 anos, 36 deles dedicados ao Grupo Espírita Trabalhadores do Bem. “Religião, para mim, significa ‘religar, unir o homem ao divino’, mas acredito que essa ligação não precisa necessariamente frequentar um templo. Algumas pessoas necessitam estar num templo religioso para fazer caridade e compreender a importância do Cristo, como guia e exemplo a ser seguido, outras realizam grandes ações e se conectam com Deus, sem frequentar nada”, disse.

WhatsApp Image 2026 01 21 at 08.15.12Ou como destacou o professor de Sociologia Alysson Rocha, do Campus Aracaju, que se identifica como agnóstico. “Religião é fortalecimento da espiritualidade; fortalecimento de princípios e valores que nos conectam uns aos outros, sem discriminação, sem preconceitos, sem julgamentos. As pessoas seguem suas crenças, porque foram tocadas por alguma energia sobrenatural e isso as faz se sentirem conectadas ao mundo físico e as pessoas com quem elas convivem”, salientou.

Outros olhares

WhatsApp Image 2026 01 21 at 10.26.54Mas religião também tem significados e conexões mais subjetivos. Thiago Estácio, designer gráfico lotado no Departamento de Comunicação Social e Eventos da Reitoria (DCOM), é evangélico pentecostal e acredita que “religião é crer na obra de Cristo que nos ‘religou’ a Deus através da sua morte na cruz. Tento ser um cristão, não religioso, no sentido de cumprir obrigações, vejo mais como um relacionamento com Deus e sua família que são as pessoas que creram em Jesus”, explicou.

Sentimento compartilhado por Maria Auxiliadora Silva Moreira Oliveira, assistente social do setor Multidisciplinar, do Campus Aracaju, que se identifica como cristã evangélica. “Encontrar o caminho é mais que religião, é encontrar esperança em meio ao caos, forças onde parece só haver temor! Então, para mim, minha crença vai além. Ela me ensinou e me ensina, cotidianamente, que preciso ser melhor, olhar em volta, me reconhecer pequena, mas também WhatsApp Image 2026 01 21 at 08.16.57grata pelo que já sou e já tenho. Não é algo genérico nem apenas uma força suprema: é Jesus Cristo. O Deus que se fez homem, habitou entre nós, sofreu as nossas dores, andou e chorou com os que choram e nos fez livres por Sua graça! Assim, a cada dia, mesmo com limites, defeitos e imperfeições, tento, como servidora pública e sobretudo como assistente social contribuir com o crescimento e a dignidade do público por mim assistido”, revelou.

Já para Lucas Wendel Silva Santos, professora de Artes do Campus Poço Redondo, que é da Tradição Nganga Lunga de Culto aos Orixás, a religião tem sentido mais amplo. “Nós entendemos que se trata de viver no coletivo, sempre buscando potencializar nossas vidas e as das pessoas que estão ao nosso redor. Não há uma separação entre minha vida cotidiana e minha relação com os Orixás e Ancestrais. Dessa forma, estou a todo momento buscando me relacionar com as pessoas de forma que possamos construir ecossistemas sociais mais respiráveis. O que quero dizer com isso é que os meus ancestrais me ensinam que é preciso viver em relação e promover convivialidades em que não sufoquemos a existência uns dos outros. Isso é religião para mim”, destacou.

WhatsApp Image 2026 01 21 at 08.16.18E para o professor de Geografia do Campus Socorro, Edmilson da Silva Oliveira, umbandista com muito orgulho e que pertence ao Centro de Caridade Guerreiros de Oxalá (CCGO), é algo mais concreto. “A minha religiosidade faz parte de um pilar de minha base. Ela me traz vários sentidos, como caridade, solidariedade, respeito; como encarar o outro dia, e por aí vai. Numa linguagem resumida, ela me orienta a ser um indivíduo melhor. Se as pessoas idealizassem os outros como a si mesmos, a vida seria uma leveza”.

Olhares enviesados

Mas nem tudo são flores. Apesar de, no IFS haver, na maioria dos casos, respeito a diversidade religiosa, há ainda pequenos gestos de intolerância, principalmente quando se trata das religiões de matriz africana. Sidney Leandro de Oliveira, é professor colaborador, no Coletivo Piabetá, sediado no Campus Socorro. Ele é do Candomblé Nação Angola, filho do Orixá Omolu e já sentiu alguns olhares atravessados. “A gente vê alguns olhares, algumas projeções que tentam não se enquadrar no lugar do preconceito, mas algumas falas recaem a esse lugar do preconceito. Outras ficam enviesadas, tentando encontrar um lugar de respeito, mas ainda assim imprimem o lugar da intolerância”, disse.

Ainda de acordo com Sidney, outras atitudes também reforçam esse preconceito. "Olhe, em que pese que hoje em dia a gente pode sim demonstrar o nosso lugar de fé com nossa linguagem, certamente os sentidos da retaliação ainda acontecem. Alguém que não aceita uma atividade ou outra, que faz um burburinho para que não seja feito, um olhar torto... tudo isso está presente”, completou.

O mesmo acontece com a professora adjunta de História do Campus Aracaju, Camila Barreto Santos Avelino Dornelles, ela disse que afirma sua crença cotidianamente e usa branco todas as sextas-feiras. De acordo com ela, nada de forma direta. “Além do branco, uso minhas guias de proteção, turbares e contregun sempre que estou de preceitos, isso chama atenção dos servidores, nosso corpo é político, nada passa despercebido aos olhos dos outros, ainda mais em uma sociedade que condena e persegue aqueles que são divergentes da normatividade. Já fui indagada por estudantes e outras pessoas da comunidade escolar sobre ser candomblecista, mas na maioria das vezes de modo indireto como se o assunto fosse proibido. Há uma invisibilidade que existe de modo afirmativo aos adeptos de religiões de matriz africana no mesmo contexto social que eles e dentro da comunidade acadêmica”, evidenciou.

Há casos também vividos por servidores evangélicos. Thiago Estácio já teve discussão com colegas de outras religiões dentro da instituição. “Foi sempre de forma respeitosa. Mas como evangélico de formação pentecostal, ainda sinto um pouco de preconceito, pré-julgamento pelo estereótipo que nossa sociedade tem em relação ao evangélico. Entendo que alguns dos nossos irmãos também não ajudam, mas não se deve julgar a todos da mesma forma”.

Quando se trata de aluno, Aldo Samuel Santos Muniz, de 19 anos, do Curso Integrado de Energias Renováveis do Campus Socorro, disse que os colegas o abordam com perguntas disfarçadas de brincadeira. “As pessoas ao saber que sou cristão, elas reagem de forma positiva, mas sempre com uns ‘pitacos’ como: todo pastor é ladrão? Você é preconceituoso? Você é homofóbico? Mas eu sempre com o máximo de respeito, explico e faço as pessoas entenderem como realmente funciona”.

No que pese que dentro da instituição, os casos relatados são tratados como “pequenos”, mas seguem a dinâmica do país. Já que nacionalmente as religiões de matriz africana são também as que mais sofrem intolerância (Umbanda, 151 denúncias e Candomblé, 117), seguidas por evangélicos (88). Os estados de São Paulo (919), Rio de Janeiro (764) e Bahia (223) lideram os casos, e mulheres seguem sendo a maioria das vítimas (1.420). Os Dados são de 2024 e mostram que o Disque 100 registrou 2.472 denúncias, um salto de cerca de 67% em relação a 2023, um aumento significativo na intolerância religiosa no Brasil.

O Disque 100 (Disque Direitos Humanos) é um canal gratuito e acessível e pode ser acionado por ligação gratuita bastando discar 100; pelo WhatsApp (61) 99611-0100; pelo Telegram (digitar "direitoshumanosbrasil" na busca do aplicativo); e pelo site do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania para videochamada em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Em todas as plataformas as denúncias são gratuitas, anônimas e recebem um número de protocolo para que o denunciante acompanhe o andamento da denúncia diretamente com o Disque 100.

Um olhar na origem

WhatsApp Image 2026 01 21 at 08.17.29A professora Lucas Wendel traz luz as atrocidades, mostrando o porquê o país age com violência, sobretudo com os que vivenciam as religiões de matriz africana. “Toda monocultura age pela via do extermínio do outro. Como diria Nietzsche, ‘para existir o bem, foi necessário criar o mal’. A violência contra culturas e crenças dissidentes é uma estratégia de guerra das camadas conservadoras e intolerantes que nos veem como ameaça à sua hegemonia. Grupos religiosos hegemônicos se sentem no direito de invadir terreiros, destruir as imagens dos nossos orixás e matar nossos sacerdotes e sacerdotisas porque o Estado, durante muitos séculos, legitimou tais práticas. No nosso Código Penal ainda está em vigor a ‘Lei da Vadiagem’ (Decreto-Lei nº 3.688/1941), um dispositivo legal que apesar de ser considerado inconstitucional, serviu para encarcerar pessoas que realizavam práticas afrodescendentes. As violências contra os terreiros de religiões de matrizes africanas Brasil a fora são reflexo de centenas de anos de violência, discriminação e racismo. É preciso que o estado seja mais incisivo em situações como estas, que os direitos de exercer nossas crenças religiosas sejam garantidos e as práticas de discriminação sejam punidas à luz da constituição”, disse.

O artigo 5º, inciso VI da Constituição Federal de 1988, define que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. No entanto, o país está muito distante de exercer sua laicidade sem problemas e combater a intolerância.

Para reforçar o combate a esses crimes, foi oficializado no Brasil em 2007, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa por meio da Lei nº 11.635, de 27 de dezembro. A escolha da data é em homenagem à Mãe Gilda, fundadora do terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador (BA), que sofreu diversos episódios de difamação e intolerância e teve sua casa e terreiro invadidos por um grupo de outra religião.

Um olhar sobre a diferença entre intolerância e racismo religioso

Intolerância religiosa é a discriminação, agressão ou ódio contra pessoas por causa de sua crença ou práticas religiosas. Já o racismo religioso é um tipo específico de intolerância que afeta religiões de matriz africana, envolvendo não só a crença, mas também a discriminação racial e estrutural contra seus povos e culturas, atacando seus territórios sagrados e tradições. 

WhatsApp Image 2026 01 21 at 08.18.08A professora Camila Dorneles, lança uma reflexão sobre o tema. “O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. Herança do nosso passado histórico, a desigualdade no nosso país tem cor. Corpos negros e indígenas foram historicamente desumanizados no processo de violências coloniais e constantemente eles são violentados nas ruas, nas comunidades tradicionais, nas redes sociais e nas instituições que deveriam nos proteger. Portanto, quando sabemos que uma criança levou uma pedrada por estar trajando roupas de candomblé; apesar de ser uma atrocidade, esse fato é banalizado pela sociedade, pois um corpo-território negro e do candomblé carrega ainda as marcas da desumanização do sistema escravista. O pacto narcisista da branquitude como afirma Cida Bento, faz com que a sociedade e os sistemas legais pormenorizem essas violências que circundam as vidas das pessoas negras e de terreiro, bem como, banalizam o fato de muitas pessoas e até religiosos atacarem nossa religião e até nossos espaços sagrados sem constrangimento algum. Precisamos potencializar a educação antirracista e contracolonial que desconstrua visões distorcidas das religiões de matriz africana no Brasil”, concluiu.

Um olhar de esperança

Como um microcosmo da sociedade, a escola, pela própria diversidade de correntes ideológicas, sejam políticas, sociais ou religiosas, não está isenta de viver casos, mesmo que em pequena proporção de intolerância. Mas relatos de servidores e alunos que tiveram experiências contrárias, alegram o coração. A professora Lucas Wendel, do Campus Poço Redondo relata que, no caso dela, os alunos e professores são bem curiosos. “Eles fazem perguntas sobre minha religiosidade e eu os respondo com tranquilidade. Olham minhas guias, braceletes e outros apetrechos com muita curiosidade. Sentem-se atraídos a tocá-los, perguntam se podem e eu sempre permito. Sei que a beleza e a energia das minhas guias possuem certo magnetismo (risos). Eu explico para que cada item serve e falo da minha vivência com as religiões de matrizes africanas. Penso que essas oportunidades podem ser ricas, são provocadoras de trocas de conhecimentos e oportunidades de fazer dos meus colegas e alunos agentes de promoção do combate à desinformação e à intolerância religiosa”, disse a professora que também é coordenadora de Cultura, Arte, Esporte e Lazer (CCAEL). “Ser respeitada e valorizada pela profissional que sou, independentemente da minha crença e cor de pele, faz uma diferença enorme”, arrematou.

WhatsApp Image 2026 01 21 at 08.19.16Tatiana Máximo Almeida Albuquerque é professora do Curso Superior de Engenharia Civil, do Campus Aracaju e espírita. Ela disse que trabalhar com tanta diversidade é uma riqueza de aprendizado. “Conviver com as diferenças nos ajuda a desenvolver a compreensão, a empatia, amplia nossos conhecimentos, bem como a entender o que se passa com outras pessoas e situações. Claro que isso tudo acontece quando há espaço para o diálogo e o respeito e eu nunca fui desrespeitada no ambiente de trabalho por causa disso”, destacou.

WhatsApp Image 2026 01 21 at 13.18.21Ainda no Campus Aracaju, existe um grupo cristão de estudantes, fundado em 2015, que se reúne todas as quintas-feiras, entre meio dia e meia e uma hora da tarde, no pátio principal para exercer sua fé cristã: O Metanoia IFS Aju. “Apesar de existirem alguns olhares de curiosidade e de incompreensão, há muito mais impactos positivos em relação ao que professamos. Contamos com o apoio da instituição e com pessoas interessadas no que realizamos há mais de dez anos. Assim, mesmo diante de olhares confusos, acabam surgindo questionamentos e buscas para compreender o que está acontecendo, na maior parte das vezes sem que haja discriminação”, disseram os atuais líderes da célula, Letícia Gonçalves e Arthur Cruz, ambos de 17 anos, alunos do 2° ano do Curso Técnico Integrado em Química.

“O nosso objetivo é deixar os dias mais leves com o aprendizado da palavra de Deus, sempre com o intuito de trazer a memória que Ele está conosco em todo tempo. Nós fazemos encontros no qual louvamos cânticos ao Senhor e sempre levando uma passagem bíblica, para aprendermos e refletirmos no que cremos. Então, há bastante comunhão, sempre evidenciando o tema trazido no dia, tanto conversando, quanto louvando e também fazendo dinâmicas certas vezes”, relataram.

Mesmo que sejam ainda ações pontuais, é na instituição de ensino que os debates podem e devem avançar para que se possa ter uma sociedade mais justa e igualitária. Seja no campo social, seja no campo político e também religioso. “Nosso planeta é enorme, possui uma diversidade imensa de culturas e formas de refletir sobre o mundo. Penso que exercer uma crença de forma livre é um direito básico. Acreditar em uma religião específica não anula a possibilidade de outras pessoas crerem em outras cosmologias. As coisas podem coexistir e confluir. Em um mesmo rio podem viver várias espécies. Por que, em uma sociedade, não é possível conviver com diferentes crenças religiosas?”, questionou a professora Lucas Wendel.

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