Saberes ancestrais e diversidade marcam Aula Inaugural de curso sobre educação antirracista no IFS
Curso de extensão integra o Programa Escola Nêgo Bispo e tem como proposta fortalecer o letramento racial crítico
Cantos, dança, ancestralidade e escuta marcaram a Aula Inaugural do curso de extensão: “Confluências Bantu-Indígenas para uma Educação Antirracista”, realizada nesta sexta, 27, no Instituto Federal de Sergipe (IFS). A formação, contemplada pelo Programa Nacional Escola Nêgo Bispo, propõe um encontro entre saberes acadêmicos e conhecimentos tradicionais, reunindo povos de terreiro, comunidades indígenas, quilombolas, estudantes, servidores e movimentos sociais em torno de uma educação mais plural, diversa e comprometida com o enfrentamento do racismo.
A iniciativa busca ampliar a aplicação das leis que determinam o ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena, fortalecendo o letramento racial crítico e reconhecendo os territórios de saber como parte fundamental do processo formativo.
Neste sentido, o reitor em substituição, José Osman dos Santos, enfatiza que a parceria do IFS com o Programa Nêgo Bispo vem para contribuir com uma formação antirracista no âmbito institucional, por trazer reflexões e saberes a respeito da cultura afro-brasileira. “É importante que esses saberes sejam visibilizados no âmbito educacional e incluídos nos currículos, inclusive trazendo os saberes populares para esse processo, sendo uma ação em respeito às Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que são leis que permitem que esse conteúdo seja incluso na educação
básica, como forma de ser uma ação de combate ao racismo dentro das instituições”.
A proposta pedagógica é coordenada pela docente do IFS, Camila Dornelles, e prevê uma metodologia baseada no diálogo entre diferentes formas de conhecimento, com giras de saberes, rodas de conversa, oficinas, visitas a comunidades tradicionais e práticas de oralidade e literatura.
A abertura da programação contou com a apresentação cultural do grupo Adupé Corpo Coreográfico, formado por mulheres do Quilombo Maloca, em Sergipe. Com uma performance inspirada no samba reggae, o grupo levou ao público uma experiência marcada pela força da ancestralidade, da musicalidade afro-brasileira e da dança como instrumento de memória, resistência e afirmação cultural.
Originário de um dos quilombos mais antigos do Brasil, o Adupé desenvolve pesquisas e práticas coreográficas baseadas nas tradições afro-brasileiras, valorizando saberes transmitidos entre gerações dentro das comunidades quilombolas.
A Aula Inaugural teve como ponto principal a formação de uma mesa com mestres e mestras dos saberes tradicionais, reunindo lideranças religiosas, pesquisadores e educadores que atuam na promoção da diversidade cultural e no combate à intolerância religiosa.
Para o babalorixá, artista e pesquisador Juracy de Arimatéia, discutir religiosidades afro-brasileiras dentro da academia é um passo fundamental para romper com visões limitadas sobre o conhecimento. “A academia é uma ágora, por isso é o espaço adequado para discutir e debater qualquer tema. O que deve ser levado em consideração é a necessidade de deslocar o conhecimento e o modo de vida das religiões afro-brasileiras, dos quilombolas e dos indígenas, da categorização ocidental, pois esta é pautada em uma moralidade distinta dos povos tradicionais”, afirmou.
O professor e pesquisador indígena Ivanilson Martins (Ivanilson Xocó) também destacou a importância do diálogo entre povos indígenas e afro-brasileiros na construção de uma educação mais justa. O docente, que é egresso do IFS, ainda reforçou que essa iniciativa vem também como reparação de uma dívida que é histórica.
“Quando o IFS realiza esse curso está tentando, enquanto Estado, contribuir com o pagamento de uma dívida histórica para que as populações indígenas e outros grupos historicamente marginalizados sejam conhecidos como povos que contribuíram e contribuem para a história brasileira. Por outro lado, trata-se também de uma forma de dialogar e se aproximar dessas populações que ainda, no século XXI, são passíveis de racismo e preconceitos”, diz Ivanilson.
Educação antirracista como prática
A ialorixá e professora Martha Sales ressaltou que ações como o curso de extensão contribuem para ampliar o respeito à diversidade dentro dos espaços educativos e ajudam a combater preconceitos ainda presentes na sociedade.
“Ao longo da minha trajetória, eu sempre estive envolvida e atuante em diversos espaços e em diversos projetos de promoção, do fortalecimento dessa diversidade cultural e religiosa. Eu entendo que essa iniciativa tem uma importância fundamental, não só para promover a tolerância, o lugar do respeito, mas para incentivar que a partir da compreensão do respeito à diversidade religiosa e cultural, que o conhecimento se amplie sobre as diversas religiões, diversas culturas e crie um ambiente favorável e de fortalecimento”, explica a docente, ressaltando a importância do curso para desconstrução de estereótipos.
Referência na Pedagogia do Terreiro, a educadora Maria Balbina, Mam’etu Kafurengá, enfatizou o papel dos territórios tradicionais na produção de saberes. “O terreiro nunca foi, e nunca será, apenas um espaço de culto religioso. O terreiro é um espaço civilizatório. Ele é a nossa primeira escola, a nossa universidade ancestral. Lá dentro, o conhecimento é passado pela oralidade, pela vivência no dia a dia, pelo respeito profundo aos mais velhos e pela nossa relação de troca com a natureza. Na Pedagogia do Terreiro, a gente ensina na roda, onde todo mundo consegue se olhar nos olhos e o aprender é sempre um fazer junto”, diz.
Responsável pela organização do curso e mediadora da mesa, a professora Camila destacou a importância de promover, dentro do IFS, um espaço que reúna diferentes tradições de conhecimento. “Esse curso nasce da força da pedagogia do Terreiro de Mametu Kafurengá, das lutas dos movimentos sociais negros e indígenas, das rodas de conversa com a equipe pedagógica e com Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi). Os esforços na construção deste curso expressam um compromisso coletivo entre a Escola Caxuté, reconhecida pela Fundação Palmares, e o IFS, na luta contra o epistemicídio”, revela Camila.
Segundo ela, a proposta do curso é construir uma formação baseada na escuta, no respeito e na troca entre universidade, comunidades tradicionais e movimentos sociais.
Aprender para transformar
Entre os participantes, a expectativa é de que o curso contribua não apenas para a formação acadêmica, mas também para a construção de novas formas de olhar o mundo e a educação. Uma delas é a aluna Sandra Rodrigues, professora de Português em Boquim e produtora cultural.
“Eu venho em sala de aula na luta de preservar e compartilhar essa história que muitos alunos não têm conhecimento que é a da nossa identidade negra. Vivemos em um outro momento de nossa geração, mas o preconceito ainda existe e nós precisamos derrubar essas muralhas. Creio que com essa formação, eu possa levar um fortalecimento para sala de aula e enaltecer a história de um povo que por anos foi negada”.
Após a mesa de abertura, os cursistas receberam os materiais do curso e participaram de um momento de confraternização.
Ao longo dos próximos meses, a formação contará com rodas de conversa, oficinas, visitas a comunidades tradicionais e práticas educativas que conectam cosmologias africanas e indígenas às demandas contemporâneas da educação, reforçando o compromisso do IFS com uma educação pública, inclusiva, diversa e socialmente referenciada.
Exposição
A oportunidade foi também para que os participantes pudessem prestigiar a exposição do artista sergipano e professor do IFS, Wécio Grillo: “Uma Olhar sobre a Performance da Capoeira”. A mostra traz uma releitura das obras de Carybé, reconhecido por retratar com maestria as expressões culturais afro-brasileiras. Os corpos dos capoeiristas, que em outro tempo foram perseguidos, quando a capoeira era considerada crime no Brasil, hoje emergem como símbolos de resistência, identidade e valorização cultural.
Outro aspecto fundamental desta exposição é a acessibilidade. As obras foram produzidas em alto relevo, usando porcelana fria sobre tela, permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão possam tocar, sentir e vivenciar a arte. A exposição é composta por 25 peças, sendo parte delas pertencentes ao acervo do Governo do Estado, sob guarda da Galeria J. Inácio, e parte sob posse do próprio artista.



Redes Sociais