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Quando a escuta não é pelo som: Libras, inclusão e vozes que se constroem no IFS

Escrito por MONIQUE DE SA TAVARES VIARD | Publicado: Sexta, 24 de Abril de 2026, 11h48 | Última atualização em Sexta, 24 de Abril de 2026, 11h49

No Dia Nacional da Libras, o IFS evidencia o papel da comunicação inclusiva na educação

01Foi assim, entre gestos interrompidos, tentativas frustradas de comunicação e muitos silêncios, que esta jornalista percebeu, na prática, o tamanho da barreira que ainda existe. Mais do que isso: entendeu o quanto a presença de intérpretes de Libras não é apenas importante: é essencial.

Essa reportagem só ganhou forma graças à mediação sensível, atenta e comprometida das intérpretes de Libras do Instituto Federal de Sergipe (IFS), Juliene Oliveira e Eliana Batista. Foram elas que transformaram o silêncio em diálogo, a distância em aproximação e possibilitaram que histórias, vivências e vozes pudessem ser compartilhadas.

Celebrado em 24 de abril, o Dia Nacional da Libras marca a oficialização da Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão no país, por meio da Lei nº 10.436/2002 - um divisor de águas para a comunidade surda brasileira.

A legislação reconhece a Libras como língua materna dessa população e representa uma conquista histórica após décadas de luta por visibilidade, respeito e inclusão. Sua regulamentação veio com o Decreto nº 5.626/2005, que tornou obrigatório o ensino da Libras na formação de professores e estabeleceu a presença de intérpretes e profissionais especializados. Mais do que uma data comemorativa, o 24 de abril é um convite à reflexão sobre cidadania, acessibilidade e o direito à comunicação.

Inclusão que se constrói diariamente

No IFS, a política de inclusão é mais do que diretriz, é prática cotidiana. Atualmente, a instituição conta com 12 estudantes surdos e 23 tradutores-intérpretes de Libras (TILS), dentro de um universo de mais de 351 estudantes com necessidades específicas. Desde o Processo Seletivo, há uma preocupação em garantir acessibilidade, com editais traduzidos para Libras e estratégias para alcançar a comunidade surda, incluindo a veiculação midiática.

alysson barreto“Essa inclusão e trabalho dos Núcleos de Apoio às Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas (NAPNEs) ocorre de forma articulada com os docentes e com a equipe multidisciplinar. É algo desafiador, não é simples, porque cada estudante tem a sua particularidade, tem a sua necessidade, o que exige muita sensibilidade de toda a comunidade do Instituto: docentes, técnicos e contratados, para que possamos receber e acolher esses estudantes em nossas turmas”, destaca o pró-reitor de Ensino, Alysson Barreto.

Essa atuação envolve diretamente os NAPNEs, localizados nos campi, e o Núcleo de Acessibilidade e Educação Inclusiva (Naedi), responsável por estruturar políticas institucionais de acessibilidade. “O Naedi desenvolve junto aos NAPNEs e com os profissionais de Libras um papel importante, assegurando que os surdos vivenciem na sala de aula ou nos espaços da instituição com equidade”, afirma Christianne Rocha, psicóloga e Christiannecoordenadora do Naedi.

Entre as estratégias educacionais organizadas pelo Núcleo para o atendimento de pessoas surdas está: o Planejamento Pedagógico Individualizado (PEI), que organiza desde o perfil linguístico do estudante até adaptações pedagógicas e recursos de acessibilidade. Além dele, outras ações: encontros com profissionais da Libras periodicamente, capacitações, veiculação de materiais inclusivos nas redes sociais da instituição, dentre outros.

Eliana Batista, intérprete e servidora do Naedi, destaca ainda a presença do Núcleo no Processo Seletivo para a contratação de profissionais especializados na área de Libras. “No último Eliana BatistaProcesso, inserimos na banca um membro surdo que faz parte do quadro do Campus Aracaju, e que tem contribuído bastante no processo de seleção”, diz Eliana. 

Muito além da tradução

Na linha de frente dessa inclusão, um personagem é essencial: o intérprete de Libras. Mais do que traduzir palavras, esse profissional garante o direito básico à comunicação. No ambiente acadêmico, ele atua como mediador entre diferentes línguas e culturas, respeitando a estrutura da Libras e assegurando que o estudante surdo compreenda, participe e se expresse plenamente.

Juliene Oliveira compreende bem essa realidade. Ela conheceu a Língua Brasileira de Sinais, ao cursar uma disciplina no curso de Licenciatura em Matemática, e desde essa época ela passou a se interessar e se aprofundar ainda mais na área. Há seis anos no IFS, Juliane encontrou na Libras não apenas uma profissão, mas um propósito.

Juliene Tenório“Dentro da sala de aula, a função do intérprete vai além da tradução, pois envolve garantir que o estudante surdo tenha acesso pleno aos conteúdos, às interações e às dinâmicas pedagógicas. É um trabalho que exige sensibilidade, responsabilidade e compromisso com a aprendizagem”, detalha a profissional.

O caminho, segundo ela, não é simples. Entre os desafios, ela aponta a necessidade constante de atualização, a adaptação às metodologias docentes e, ainda, a luta por reconhecimento e valorização profissional.

Quem já viveu os dois lados dessa atuação foi Alisson Farias. Ex-intérprete na instituição e hoje professor de Libras no IFS, ele traduz na própria trajetória o encontro entre essas funções. “Essa experiência me permite compreender que se trata de profissões complementares, mas com atribuições diferentes. O professor ensina, planeja e avalia o processo de aprendizagem da Libras, enquanto o intérprete traduz e interpreta as interações e os conteúdos, assegurando que a comunicação ocorra de forma adequada no ambiente educacional”.

Ele destaca que, embora o intérprete possa colaborar com adaptações linguísticas, seu papel não é substituir o docente, mas garantir o acesso.

Ao mesmo tempo, a atuação como docente amplia horizontes: forma novos educadores, promove a cultura surda e fortalece a inclusão para além da sala de aula. “O professor de Libras também pode desenvolver ações de extensão como carga horária complementar. Entre essas iniciativas, destacam-se oficinas de Libras, produção de materiais didáticos voltados para pessoas surdas e cursos de formação básica em Libras. Essas ações ampliam o alcance social da instituição, promovem acessibilidade Alisson Fariaslinguística e aproximam a comunidade do conhecimento sobre a Libras e a educação de surdos”, reflete o docente.

Transformando trajetórias

José JonatasSe a inclusão nasce nas políticas, é na rotina dos estudantes que ela ganha vida. José Jonatas Góis, aluno de Petróleo e Gás do Campus Aracaju, conhece bem esse percurso. Surdo desde a infância e criado em Lagarto (SE), ele resume sua trajetória com simplicidade, já que o rapaz foi “aprendendo a viver assim”.

No IFS, porém, essa vivência ganha novos contornos. “Eu me sinto incluído, como qualquer outro aluno”, afirma. Com o acompanhamento de uma intérprete em sala, ele consegue seguir as aulas e participar ativamente - um detalhe que, para ele, faz toda a diferença. Entre conteúdos e descobertas, Jonatas já tem sua preferência: “Gosto mais das aulas práticas, porque acho mais fácil de entender e aprender”.

A trajetória de Guilherme Tenório, egresso do IFS Campus Socorro, mostra que inclusão também é, sobretudo, superação. Natural de Arapiraca (AL), ele foi diagnosticado com surdez aos três anos de idade e, desde cedo, precisou enfrentar desafios que iam além da sala de aula: episódios de bullying, dificuldades no processo de aprendizagem e o sentimento de isolamento. Foi no encontro com outros estudantes surdos e no acesso à Libras que ele começou a ressignificar sua própria história, ao encontrar identidade e pertencimento

“Quando me mudei para Aracaju, em 2009, comecei a estudar na Escola 11 de Agosto e fui me desenvolvendo mais na língua de sinais, porque era uma escola mais inclusiva. Tinha muitos amigos, todos surdos”, relembra. A trajetória seguiu no ensino médio, no IPAESE, uma escola bilíngue. “Foi uma experiência muito boa. Aprendi bastante, inclusive a fazer redação de forma mais fluente”, conta. Depois, veio o IFS, onde cursou Manutenção e Suporte em Informática.

No Instituto, apesar da convivência com colegas ouvintes, Guilherme revela que, por vezes, a solidão batia. “Às vezes eu me sentia sozinho, por ser o único surdo na sala”, diz. Ainda assim, o suporte fez diferença: “Eu tinha um intérprete comigo. Isso foi muito importante para garantir acessibilidade e eliminar as barreiras de comunicação”. Sobre o curso, ele resume com objetividade: “Foi bom. Aprendi, adquiri conhecimentos na área de Informática”. Agora, segue projetando o futuro: “Meu objetivo é continuar estudando. Quero fazer Eletrônica”.

“A Libras é minha voz”

Mais do que uma língua, a Libras atravessa histórias, constrói identidades e abre caminhos. Quando questionados sobre sua importância, estudantes e professor convergem em um ponto comum: ela é instrumento de existência, comunicação e pertencimento.

Para José Jonatas, a definição vem carregada de significado: “A Libras é minha voz. É por ela que eu me comunico, que as pessoas me entendem e sabem o que eu quero dizer”. E ele reforça, como quem fala a partir da própria trajetória: “que nunca desistam, que estudem e lutem pelo que acreditam”.

Guilherme TenórioGuilherme Tenório também ressalta com convicção sobre o orgulho linguístico que tem pela Língua Brasileira de Sinais: “Prefiro ser fluente na comunicação em Libras. Acho uma língua maravilhosa! Uma pena que caminhamos em passos lentos quando o assunto é a Língua de Sinais, por isso é importante que as pessoas se interessem em aprender, como a Língua Inglesa ou Espanhola. Não como obrigação, mas como uma escolha”.

Na perspectiva de quem ensina, o professor Alisson Farias amplia esse olhar. Para ele, a Libras ocupa um lugar central na construção de uma educação mais inclusiva. “Para mim, a Libras é muito importante no ambiente acadêmico porque ela não representa apenas uma língua, mas também um direito, uma expressão da identidade surda e uma forma de promover inclusão e participação social. Quando a instituição oferta esse conhecimento, ela amplia o olhar da comunidade acadêmica para a diversidade e contribui para uma formação mais humana, crítica e sensível às diferenças”.

Ele também projeta um futuro de avanços: enquanto docente, defende a ampliação da oferta da Libras em diferentes níveis e cursos da instituição, fortalecendo uma educação que dialogue com a diversidade e rompa barreiras históricas. No IFS, esse caminho já está sendo traçado e aponta para um futuro em que comunicar, aprender e pertencer não sejam exceções, mas direitos assegurados a todos e todas.

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